TRT FM – Rapper, historiadora e escritora, Preta Rara fala sobre os desafios da mulher negra no Brasil

Foto da entrevistada da semana. Com um sorriso no rosto, Preta Rara usa blusa rosa e tranças azuis

A escritora, rapper, historiadora e ex-empregada doméstica Joyce Fernandes foi a entrevistada da semana da Rádio TRT FM 104.3.  Mais conhecida como ‘Preta Rara’, ela falou sobre os desafios da mulher negra, racismo e os problemas enfrentados pelas empregadas domésticas no Brasil.

Preta Rara também falou sobre seu primeiro livro “Eu, empregada doméstica: a senzala moderna é o quartinho da empregada”, lançado em 2019, dois anos após o surgimento de sua página no Facebook (que tem o mesmo título), onde ela recolhia relatos de situações humilhantes que domésticas viviam no trabalho.

A entrevista foi ao ar na edição desta segunda-feira (08) do programa TRT Notícias. Confira os principais trechos:

 

Como o racismo atravessou o seu caminho?

Eu nasci em Santos, litoral de São Paulo. Sou a mais velha das filhas que minha mãe e meu pai tiveram. Passei a vida inteira na periferia, estudei em escola pública. Quando chegou no momento de procurar emprego, currículo com boa aparência nunca era personificada numa pessoa igual a mim.

O único lugar que me receberam para trabalhar foi em casa de família, onde atuei durante sete anos. Só então fui entender o que é ser empregada doméstica no Brasil. Nos falam que é uma profissão como qualquer outra, porém eu não vejo ninguém desejando isso para os seus filhos. Nas primeiras semanas trabalhando como empregada doméstica, já entendi o que era essa tal da família brasileira, da branquitude elitista.

 

Você está muito presente nas redes sociais e demais meios de comunicação, sempre promovendo a diversidade e a inclusão. Como analisa essa questão nos meios digitais e até mesmo nos meios tradicionais?

Primeiramente, eu não estou nas redes sociais para promover a igualdade ou inclusão. Na realidade, estou nas redes sociais para mostrar que pessoas iguais a mim existem. Todo esse ativismo, que é voltado para o nome Preta Rara, não foi nada projetado. Na realidade, foi uma voz que viu uma oportunidade de falar na internet, para encontrar pessoas que estivessem vivenciando as mesmas coisas que eu vivenciei lá no litoral de São Paulo.

Era uma busca desenfreada pela tal da representatividade, para saber se os problemas que atingiam a mim, por ser mulher, preta e gorda, só aconteciam comigo. Então, não foi nada projetada essa questão de ser ativista, de trabalhar com a diversidade e a inclusão.

Na realidade, me levaram para esse caminho pelo fato de eu narrar as minhas experiências de vida diariamente. Acabaram me colocando dentro dessa forma, desse quadrado. Algumas pessoas pensam que eu só falo sobre diversidade, inclusão e tudo mais.

Na realidade, é uma voz potente que quer ser ouvida e vai ser ouvida por algumas pessoas. As redes sociais têm um papel fundamental no meu trabalho, para disseminar as minhas ideias, a minha imagem e tudo mais. Como eu sempre digo, meu corpo é um corpo político. É importante que as pessoas olhem nas redes sociais uma foto minha de biquíni, de calcinha e sutiã, enfim, para ver que existem mulheres gordas bem resolvidas. Existem diversos tipos de corpos. Então, eu utilizo a internet dessa forma também.

Nos meios tradicionais, a gente não consegue furar a tal da bolha. Ainda existe esse padrão pré-determinado, esse pré-estabelecido no Brasil de dizer o que é belo. O que é? Quando as pessoas escutam a palavra belo, bela, a que isso remete? Ainda remete uma imagem que não é uma imagem que dialoga com a minha. Belo no Brasil é a mulher magra, branca, cabelo liso.

Ainda temos dificuldades de inserir esse conteúdo nos meios tradicionais, mas estamos aí, quebrando barreiras e conquistando nossos espaços como qualquer outra pessoa tem direito.

 

Como é a sua relação com a música e como o Rap e o Hip Hop estão ligados à mensagem que você quer passar?

A música sempre esteve presente na minha vida desde a infância. O meu pai é colecionar de discos, então, tudo em casa sempre foi muito musicado. Arrumar a casa, fazer lição, organizar as coisas, sempre com música presente. Tanto a música tocada até a música que a gente mesmo produzia. Quando eu era evangélica, era da igreja e tinha um grupo musical com meus pais e minhas irmãs.

O Hip Hop foi uma veia que eu percebi, que eu poderia falar sobre as coisas que estava sentindo, que eu estava vivenciando e colocar tudo isso na música. Eu costumo dizer que o Rap é uma revista falada da periferia. Então, tudo o que acontece a gente consegue colocar nas letras e passar essa verdade através da música.

Eu utilizei o Hip Hop, que é esse grande movimento cultural, para poder disseminar os meus pensamentos porque eu acredito que a música tem o poder de chegar em vários lugares que eu ainda não cheguei. Eu nunca fui em Moçambique, nunca fui em Angola, porém, as minhas músicas tocam nas rádios de lá. Esse é que é o grande bum boom da música. O Hip Hop sempre foi uma inspiração para mim. Se hoje eu sou historiadora foi graças ao Rap, foi pesquisando, indo atrás, querendo escrever letras com conteúdo histórico, que eu desenvolvi o gosto e o desejo por querer estudar história e querer ser professora de história. O Hip Hop tem esse potencial na minha vida.

 

Fale um pouco sobre sua obra “Eu, empregada doméstica. A senzala moderna é o quartinho da empregada”

Esse livro é fruto de uma página no Facebook que eu criei em 2016 chamada “A empregada doméstica” para poder denunciar as más relações de trabalho doméstico aqui no Brasil. Viralizou muito rapidamente, com várias outras trabalhadoras domésticas enviando seus relatos.

Os relatos são postados de forma anônima. Enquanto historiadora, percebi que as redes sociais têm prazo de validade. Então, se o Facebook deixar de existir, eu perderia todos aqueles relatos, que nada mais são que uma grande parte dessa historiografia brasileira de forma oral.

Foi então que eu decidi criar, juntar e escrever esse livro para denunciar e trazer incômodo para essa sociedade que ainda acredita que a trabalhadora doméstica é  propriedade privada do patrão. O livro saiu pela editora Letramento, no ano passado. É um livro muito importante porque narra essa parte da história do Brasil que as pessoas esquecem ou fingem não existir. São relatos anônimos e inéditos de trabalhadoras domésticas. A abertura do livro traz o relato da minha avó, minha mãe e o meu relato, para mostrar que no Brasil o trabalho doméstico é uma profissão hereditária para as mulheres pretas. Minha vó foi doméstica, minha mãe e eu também fui.

Trago esse recorte também, que é uma profissão que tem classe, cor e gênero. A classe: mulheres pobres, gênero: mulheres e a cor: pretas.

São 6 milhões de trabalhadoras domésticas no Brasil, dessas, 78,8%, são mulheres pretas. É um número bem emblemático.

O livro pode ser encontrado para venda em vários sites.

 

Recentemente o racismo entrou em pauta na mídia por diversos eventos ocorridos nos EUA. O que você pode destacar sobre isso?

O que ocorreu nos Estados Unidos é algo que ocorre no Brasil todos os dias. A cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil, são estatísticas da anistia brasileira. Então, fica evidente o quanto algumas pessoas preferem olhar o que acontece nos Estado Unidos e fechar os olhos para o que acontece aqui.

Nos EUA, 11% da população é afro-americana, de pessoas pretas. Aqui no Brasil somos 54% da população, ou seja, mais do que a metade. A gente sabe que a política do embranquecimento aqui no Brasil foi uma das que mais deu certo, onde existem várias pessoas que são pretas e não sabem que são pretas, não se reconhecem pretas porque ser preto no Brasil não é algo fácil. Algumas pessoas demoram a descobrir, não é algo ainda trabalhado.

Temos lutado muito para devolver a nossa identidade étnica no nosso país. Então, por isso que hoje em dia existem várias pessoas pretas abordando e falando sobre esse assunto.

A mídia brasileira deu visibilidade as questões ocorridas nos EUA porque o mundo estava falando disso. Eu ouvi algumas pessoas dizendo, “os pretos daqui não se manifestam dessa forma, não quebra a loja, não faz isso, não faz aquilo.” E outras pessoas julgando: “Ah, mas não precisa quebra loja, não precisa fazer isso, não precisa ter vandalismo”. É complicado porque a gente é violentada neste país a todo momento.

Quando a gente quer ter o nosso direito de reagir com a mesma violência que o Estado tem perante nosso corpo aí nós que somos os vândalos. O Estado brasileiro nos aniquila, nos assassina, nos impede de ter diversos acessos, seja acesso à educação, à saúde, à alimentação, acesso à moradia, e quando a gente se rebela, nós que somos os vândalos.

Genocídio da juventude negra é algo existente no Brasil, inclusive nesse momento de crise.

Saíram diversas pesquisas comprovando qual era a cor e a cara das vítimas da covid-19. São pessoas pretas e periféricas. Essa é a necropolítica que a gente vive no momento. Por isso que não se investe em saúde, não temos ministro da saúde, porque a política atual é para o extermínio das pessoas pretas e pobres. E eles estão conseguindo, basta olhar a quantidade de vítimas.

Essa questão das vítimas da Covid é muito emblemática. A primeira vítima da covid-19 no Rio de Janeiro foi de uma trabalhadora doméstica, onde seus patrões sabiam que estavam infectados e, mesmo assim, não dispensaram a trabalhadora para ela cumprir a quarentena remunerada.

Eu vejo o brasileiro se assustando e se indagando com questões de fora do país, mas as coisas que acontecem debaixo dos olhos dele, o que acontece na calçada do condomínio dele, ele miniminiza, naturaliza, como se fosse algo comum.

O que aconteceu nos EUA com o George foi horrível, lamentável. Porém, a mídia brasileira e as pessoas não podem vendar os olhos para o que acontece na porta do condomínio delas, o que acontece por onde elas passam de carro. Aqui no Brasil, a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado, isso é estatística, isso não é conto de fadas e eu fico assustada como a população brasileira aprendeu a naturalizar as mortes.

(Brigida Mota/ Sinara Alvares)

 

 

 

 

 

 

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